Adeus a Dona Pretinha, guardiã do Carnaval cuiabano e voz da resistência cultural
Redação
Saudades eternas
O Carnaval de Cuiabá amanheceu mais silencioso no último domingo (28) com a despedida de Clemence Almeida Saldanha, a eterna Dona Pretinha. Internada por complicações pulmonares, ela partiu deixando um vazio profundo na cultura popular da capital, mas também um legado que segue vivo nas ruas, nos blocos e na memória de quem aprendeu com ela a amar e defender a folia.
Natural de Guiratinga (MT), ex-miss e conselheira de Cultura nos âmbitos municipal e estadual, Dona Pretinha foi uma das principais responsáveis por manter o Carnaval cuiabano de pé em períodos de abandono e escassez de recursos. Atuou como articuladora incansável, unindo artistas, blocos, poder público e a população em torno de um mesmo objetivo: não deixar a tradição morrer.
Para o filho, o empresário de comunicação e promotor de eventos Palmiro Pimenta, a mãe tinha uma habilidade rara de transitar entre mundos distintos. “Ela era a pessoa mais política que eu já conheci na minha vida”, resumiu. Dentro de casa e fora dela, essa política se traduzia em acolhimento. Dona Pretinha ajudava quem precisava, sem medir esforços. “Meus amigos todos me ligaram dizendo que ela era como se fosse mãe deles”, contou, emocionado.
Mesmo nos momentos mais difíceis, manteve o carisma e a generosidade que a marcaram. Segundo o filho, até nos últimos dias, internada na UTI, conseguiu transformar o ambiente ao seu redor. “Virou amiga de todo mundo lá”, relembrou.
A paixão pelo Carnaval nasceu ainda na infância, quando se encantava com os mascarados em Guiratinga. Em Cuiabá, transformou esse amor em missão. Foi fundadora e alma do Bloco Banana da Terra, que ajudou a estruturar, fortalecer e consolidar ao longo dos anos. Mais do que planejar, ela fazia: costurava, bordava, ajustava fantasias e refazia tudo se não estivesse à altura do público.
“Ela tinha visão. A preocupação dela era agradar o público, fazer algo bonito, mesmo com todas as dificuldades”, destacou o presidente do bloco, Celso Cesar Silva. Dificuldades que nunca foram poucas, diante da falta de incentivo e da descontinuidade de políticas públicas para a cultura. Ainda assim, Dona Pretinha insistia. Brigava por recursos, por espaço e pelo direito de os blocos ocuparem as ruas.
A produtora cultural Madona Arruda lembra que ela não lutava apenas pelo próprio bloco. “Ela brigava para manter o Carnaval vivo, não só para o Banana da Terra, mas para todos”, afirmou. Mesmo debilitada, poucos dias antes do Natal, falava de futuro, planejava alas temáticas e sonhava com a comemoração dos 20 anos do bloco.
Esse sonho começou a se concretizar neste ano, com o retorno do Banana da Terra às ruas, acompanhado de perto por Dona Pretinha, que participou ativamente dos preparativos. Pouco antes de ser internada, fez questão de gravar um vídeo, mesmo com dificuldade para respirar. Dançou, sorriu, orientou. “O Carnaval era a vida dela”, resumiu Celso.
No registro, publicado nas redes sociais do bloco, ela reafirmou seu amor pela folia e pelo público. Disse que tudo o que entrava era investido na avenida e que quem ama o Carnaval faz por paixão. Era esse espírito que a movia: agregar, unir e resistir.
Dona Pretinha se despede deixando mais do que saudade. Deixa um exemplo de luta, afeto e compromisso com a cultura popular. Seu nome seguirá ecoando nos tambores, nos passos dos foliões e na história do Carnaval cuiabano.