Como o crime organizado transformou postos em máquinas de lavagem de dinheiro
Redação
Combustível sujo
Abastecer o carro sempre foi visto como um gesto automático do dia a dia. O que poucos imaginavam é que, por trás desse hábito corriqueiro, operava um dos mais complexos esquemas de financiamento do crime organizado já identificados no país.
As engrenagens dessa estrutura vieram à tona após investigações conduzidas ao longo dos últimos anos, com a atuação conjunta de forças policiais estaduais, federais e órgãos de controle, como a Receita Federal. O foco principal foi a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no setor de combustíveis.
Em 28 de agosto, uma grande operação da Receita Federal, em parceria com órgãos do Estado de São Paulo, cumpriu medidas contra mais de 190 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, suspeitas de crimes contra a ordem econômica, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. As apurações indicam que a facção movimentou cerca de R$ 52 bilhões, utilizando aproximadamente 40 fundos de investimento para ocultar a origem ilícita dos recursos.
Segundo a Receita, o esquema não apenas lavava dinheiro proveniente de outras atividades criminosas, como também gerava lucro em todas as etapas da cadeia do setor. “A utilização de centenas de empresas operacionais permitia dissimular recursos de origem criminosa. A sonegação fiscal e a adulteração de produtos ampliavam os ganhos e causavam prejuízos diretos aos consumidores e à sociedade”, informou o órgão.
As investigações revelaram que importadoras ligadas ao grupo adquiriram insumos químicos e combustíveis com recursos ilegais. Entre 2020 e 2024, o volume de importações ultrapassou R$ 10 bilhões. Distribuidoras, formuladoras e postos de combustíveis também fraudavam o recolhimento de tributos de forma sistemática, resultando em créditos tributários federais que somam mais de R$ 8,67 bilhões.
Auditores-fiscais identificaram irregularidades em mais de mil postos espalhados por dez estados, incluindo São Paulo, Bahia, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Muitos desses estabelecimentos funcionavam como pontos de coleta de dinheiro em espécie ou por meio de maquininhas de cartão, canalizando recursos diretamente para contas vinculadas ao esquema criminoso.
Entre 2020 e 2024, a movimentação financeira desses postos chegou a R$ 52 bilhões, com pagamento de impostos incompatível com o volume das operações. As autuações ultrapassaram R$ 891 milhões.
A ocultação do dinheiro ocorria, principalmente, por meio de fintechs. Uma delas foi identificada como verdadeiro “banco paralelo” da organização criminosa, com movimentação superior a R$ 46 bilhões no período investigado. Além disso, depósitos em dinheiro vivo — prática incompatível com instituições de pagamento — somaram mais de R$ 61 milhões em pouco mais de um ano.
O dinheiro lavado era reinvestido em fundos de investimento multimercado e imobiliários, muitos deles fechados e com apenas um cotista, criando múltiplas camadas de blindagem patrimonial. A Receita identificou ao menos 40 fundos com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, usados para adquirir terminais portuários, usinas de álcool, milhares de caminhões e mais de uma centena de imóveis de alto valor.
Paralelamente, outra operação colocou sob investigação o grupo Refit, apontado como o maior devedor de impostos do Brasil, com débitos superiores a R$ 26 bilhões. As apurações indicam movimentação de mais de R$ 70 bilhões em apenas um ano, além de vínculos financeiros com empresas investigadas no esquema do PCC.
O impacto dessas operações impulsionou a aprovação do projeto do devedor contumaz, que mira empresas que deixam de pagar tributos de forma deliberada. A nova legislação prevê restrições severas, como impedimento de benefícios fiscais, participação em licitações e acesso à recuperação judicial.
Para especialistas, a medida representa um avanço no combate à sonegação estruturada. “Quando essas empresas deixam de pagar impostos, o prejuízo não é do governo, mas da população, que perde recursos para saúde, educação e segurança”, avaliou o economista Rodrigo Simões.
O caso escancara como setores essenciais da economia podem ser capturados pelo crime organizado — e como práticas aparentemente banais podem esconder esquemas bilionários que afetam toda a sociedade.